* Rogério Marques
Nossa imprensa divulgou com destaque a prisão e condenação de duas jornalistas americanas de origem oriental, na Coréia do Norte, acusadas de espionagem. Euna Lee e Laura Ling pegaram 12 anos de prisão. Tomara que sejam libertadas o quanto antes. Mas será que os brasileiros sabem, também, que há 11 anos cinco cidadãos cubanos estão presos nos Estados Unidos, em condições duríssimas, condenados num julgamento que sempre foi questionado por juristas de diversos países?
Garanto que a maioria dos leitores e até mesmo muitos jornalistas ignoram este fato por um único motivo: nossos jornais vivem uma situação anacrônica, ainda mergulhados no espírito da guerra fria. Dependendo do país em foco, as notícias ganham espaço e interpretações diferentes. Ao contrário das americanas Euna Lee e Laura Ling, que tiveram suas fotos divulgadas em todos os jornais, os cinco cubanos encarcerados há 11 anos não têm rosto, profissão, nem mesmo nomes.
Antonio Guerrero, engenheiro civil, Fernando Gonzalez, Gerardo Hernández, licenciados em relações internacionais, Ramón Labañino, economista, e René González, técnico de aviação, foram presos em Miami em 1998. O governo de Cuba afirma que os cinco investigavam a ação de grupos terroristas anticubanos, que nunca deixaram de agir. Em 1976 derrubaram um avião da empresa Cubana de Aviación, matando 73 pessoas. Em 1997 os terroristas mataram uma pessoa e feriram 12 num hotel em Cuba. Em julgamento considerado político e cheio de irregularidades, os cinco cubanos foram condenados a penas altíssimas – Gerardo e Antonio pegaram prisão perpétua.
Nos últimos anos cresce no mundo inteiro uma campanha pela libertação do grupo, diante de evidências de que o julgamento foi político. Dezenas de juristas, artistas, políticos e intelectuais manifestaram apoio à campanha, que ganhou mais força no dia 6 de março com a adesão dos 10 ganhadores de prêmios Nobel: o escritor alemão Günter Grass; o dramaturgo e compositor italiano Dario Fo; o físico russo Zhores Alferov; o presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta; o argentino Adolfo Pérez Esquivel; a guatemalteca Rigoberta Menchú; a escritora sul-africana Nadine Gordimer; a irlandesa Mairead Corrigan-Maguire; o escritor português José Saramago; e o escritor nigeriano Wole Soyinka.
O caso dos cinco cubanos está longe de ser o único exemplo da falta de isenção e independência da imprensa brasileira. Outro episódio gritante foi a invasão e destruição do Iraque pela chamada Coalizão, liderada pelos Estados Unidos, em 2003. Um massacre.
Mais tarde descobriu-se que a razão alegada para a invasão era mentira. O Iraque não tinha armas de destruição em massa. E por que nossa imprensa não clama para que Bush seja julgado pelos crimes que cometeu contra a humanidade, não apenas no Iraque mas no campo de concentração de Guantánamo? Será que somente o dirigente do Sudão, Omar al-Bashir, é um criminoso de guerra?
Em vez de serem julgados por seus crimes, e contando com o silêncio da mídia, George W. Bush faz palestras em universidades e seu vice Dick Cheney ainda defende a tortura de prisioneiros em Guantánamo. Enquanto isso, quem está preso é o jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi. Seu crime: atirar sapatos no criminoso de guerra que destruiu e ainda ousou visitar o Iraque. Entre os casos de al-Zaidi e dos cinco cubanos encarcerados há 11 anos nos Estados Unidos existem portas. A imprensa tem o dever de abri-las.
FONTE: REVISTA LIDE – Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro
*Vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro


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