Por que devemos nos preocupar com jair bolsonaro?



Notícias


14.06.2017 • Artigo

Adilson Barros, advogado do Escritório Crivelli, dirigente da Contraf e militante LGBT, aborda em artigo os riscos socais de uma possível eleição presidencial de um político de extrema direita no Brasil.

Em período recente, uma pesquisa de intenção de voto realizada pelo instituto MDA para a Confederação Nacional dos Transportes trouxe duas importantes revelações: em primeiro lugar, em todos os cenários, desponta o ex-presidente Lula da Silva. A segunda revelação está em segundo lugar no voto espontâneo – Jair Bolsonaro. Com cerca de 6,6% das intenções de voto, ante os 16% de Lula, o candidato do PSC notável por afirmações como “quem procura osso é cachorro” (em relação aos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade) e “eu prefiro ter um filho morto a um filho gay” parece ter consolidado algum reconhecimento político-eleitoral pela sua marcante personalidade.
O que muitos ainda insistem em chamar de “loucura” - o que parece ser não apenas despropositado à situação como também um insulto aos neurodivergentes - a bem da verdade não passa de um velho e conhecido truque político, que Bolsonaro parece manusear com maestria: o extremismo estratégico. Quando mais numerosos os inimigos e mais contundentes as críticas e ofensas a eles dirigidos, mais imediata é a identificação com o candidato e seu projeto. A diferença, no caso de Jair Bolsonaro, é que dentre os seus inimigos autodeclarados encontram-se a comunidade LGBT, as mulheres, a população negra, os povos indígenas e as religiões de matrizes afro, para ficar em alguns. O termo “minoria”, aqui, tem apenas o sentido de demarcar as relações de poder exercidas – numericamente, trata-se evidentemente da maioria da população.
Mas que levaria um candidato à disputa presidencial – o segundo lugar, em uma pesquisa de intenção de voto longínqua do pleito, verdade – a advogar contra a maior parte da população de um país e, em especial, contra seus direitos? Parte desta resposta pode ser respondida por meio de análise acurada das alianças que têm permitido a consolidação da base eleitoral do clã Bolsonaro no Rio de Janeiro, somado às possibilidades de arranjos publicitários e eleitorais. Mas existe uma verdade inconveniente que reside na outra parte da resposta: Bolsonaro não precisa ser declaradamente racista, ou machista, ou homofóbico - embora aparentemente não tenha pudor em sê-lo. Basta que suas ideias agradem aos ouvidos de uma parcela da população que se veja representada em um engajamento anti-esquerdista, anti-movimento negro, anti-feminista e/ou anti-movimento LGBT. Em tempos de panelas barulhentas e patos chauvinistas, trata-se de um dispositivo sofisticado de organização das polarizações políticas, da qual Bolsonaro se proclama com indubitável traquejo o titular legítimo de um dos lados, a saber, aquele que tende a tratar as diferenças com intolerância e o desvio com punição.
Consideramos esta forma de manifestação ou pronunciamento um afronte aos direitos conquistados nos últimos anos. Infelizmente o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo: 1 a cada 25 horas e seguidamente a juventude negra nas periferias e violência contra as mulheres.
Na questão LGBT, no 1º quadrimestre deste ano, 117 pessoas foram assassinadas no Brasil devido à discriminação por gênero e orientação sexual, conforme levantou o GGB-Grupo Gay da Bahia. O número subiu 18% em relação ao mesmo período de 2016.
Da nossa parte, abunda uma espécie de má consciência acerca da viabilidade da candidatura de Bolsonaro à presidência. Não é incomum ouvir em rodas progressistas tratando do tema um “isto é impossível, ele é louco, relaxa, não vai ganhar, estamos apreensivos, fazer o que, né”.
Não se sabe ao certo a esquerda norte-americana pensava assim no final do ano passado, é possível que sim, e também existe - em futuro breve literalmente - um muro de fatores que separam a conjuntura americana da nossa, bem como a francesa. Mas ao olhar para as eleições francesas, os dados são alarmantes: 39% dos gays casados declaram voto na extrema-direitista Marine Le Pen. Lésbicas casadas, 26%. A mesma candidata que no ponto 87 do seu Plano de Campanha elenca como meta o fim do casamento homoafetivo. É sabido, claro, que além de lésbicas e gays, pode-se ser xenófobo, nacionalista e até homofóbico, seja nas práticas cotidianas ou mesmo em preferências eleitorais. Mas é que esses dados não param de incomodar. A percentagem de voto em Le Pen é maior nos casais homossexuais do que nos casais hetero (32,45% para 29,98%). Somando as preferências de votos na extrema-direita à centro-direita, o número chega a 61,9% de gays e 49,3% de lésbicas. Não, não somos a França, nem os EUA, mas dando uma espiada no quintal de casa, parece de bom tom colocar esses números nas contas que a gente anda fazendo para 2018. A não ser que a nossa próxima reação já esteja esboçada: a de desagradável surpresa.
Tempos difíceis para os direitos conquistados com muita resistência e luta ressurge através dos que querem o retrocesso no país. Os LGBTs são discriminados em todas as esferas, e infelizmente violentados e assassinados por serem diferentes e lutar pelos seus direitos. Continuam segregadas e uma parcela considerável fora do mercado de trabalho. O combate à LGBTFOBIA e todas as formas de discriminação é urgente e necessário.

As opiniões expressas no artigo não refletem, necessariamente, o posicionamento da diretoria do SEEB/VCR.

COMPARTILHE a notícia


Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem.